Sobreviventes de câncer de mama enfrentam novo desafio: o climatério sem reposição hormonal

Com mais de 70 mil novos diagnósticos por ano, o Brasil acumula um exército de mulheres curadas, mas abandonadas pela falta de informação na transição para a menopausa
Sobreviventes de um câncer de mama, curadas ou em remissão, mulheres enfrentam agora um novo desafio, com a chegada do climatério. Fogachos intensos, noites sem sono, ressecamento vaginal e oscilações de humor, com uma nova barreira: a impossibilidade de realizar a terapia hormonal.
Principal recurso para o controle desses sintomas, a terapia de reposição hormonal tem contraindicação absoluta para mulheres com histórico de câncer de mama, de endométrio, tromboembolismo venoso, doença cardiovascular ou hepática grave, entre outras situações, explica o Dr. Alexandre Rossi, ginecologista responsável pelo Ambulatório de Ginecologia Geral do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, em São Paulo. "A síndrome climatérica nessas pacientes é, muitas vezes, muito difícil. Exatamente por isso, a resposta médica não pode ser o silêncio".
Um exército de sobreviventes
O Brasil registra cerca de 73.610 novos casos de câncer de mama por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Com o avanço das terapias oncológicas, a taxa de sobrevida para casos diagnosticados precocemente pode superar 90%. Isso significa que o país acumula, ano após ano, um número expressivo de mulheres que sobreviveram ao câncer e chegarão ao climatério.
Muitas dessas mulheres, inclusive, podem enfrentar o climatério de forma precoce, por conta dos tratamentos oncológicos, como a quimioterapia e a hormonioterapia, que podem suprimir abruptamente a função ovariana. Ao contrário da menopausa natural, que ocorre de forma gradual, essa transição costuma ser mais intensa e com sintomas mais severos.
"O climatério induzido pelo tratamento oncológico é diferente. A queda hormonal é brusca. Os sintomas são mais intensos e a mulher já chega fragilizada por tudo o que passou. Esse conjunto exige atenção especializada", explica o Dr. Alexandre.
Contraindicação não é abandono
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) são categóricas: o câncer de mama é contraindicação para o uso de terapia hormonal do climatério. A orientação é baseada na ausência de dados científicos suficientes que comprovem a segurança do uso de hormônios nessas pacientes, especialmente nas com tumores hormônio-dependentes.
Embora a terapia hormonal seja vedada, essas mulheres devem receber cuidados especializados e terapias não hormonais que aliviem os sintomas e melhorem a qualidade de vida durante o climatério. O problema, segundo o Dr. Alexandre Rossi, é que essa orientação raramente se traduz em prática clínica efetiva.
"A contraindicação hormonal é clara e deve ser respeitada. Mas há opções. Por isso, é importante que estas mulheres procurem atendimento médico especializado, com profissionais atualizados, disponíveis e comprometidos."
Terapias alternativas
Para mulheres que não podem usar hormônios, a medicina dispõe de um arsenal não hormonal que, quando bem indicado e acompanhado, pode oferecer alívio real. Entre eles, estão:
• Antidepressivos: podem reduzir a frequência dos fogachos em 40% a 65%, com resposta já nas primeiras semanas de uso
• Hidratantes e lubrificantes vaginais não hormonais: para o manejo da síndrome geniturinária, que afeta diretamente a qualidade de vida e a saúde sexual
• Novos medicamentos: o Fezolinetant representa a nova fronteira do tratamento não hormonal. Aprovado nos EUA desde 2023 e recentemente no Reino Unido, seu pedido de aprovação no Brasil aguarda análise da Anvisa. Estudos mostram redução de até 60% nos episódios de ondas de calor, com boa tolerabilidade
"A mulher que sobreviveu ao câncer de mama tem todo o direito de ter qualidade de vida. Não é demais pedir que ela durma bem, que não passe o dia em fogachos, que tenha saúde sexual. Isso não é frescura. É saúde. É obrigação da medicina oferecer esse suporte", alerta o especialista.
O papel do ginecologista
O Dr. Alexandre Rossi defende que o ginecologista tem um papel central e insubstituível no acompanhamento dessas pacientes, que vai além do rastreamento oncológico e se estende ao suporte integral durante o climatério.
Isso inclui a construção de um plano terapêutico individualizado, a orientação sobre estilo de vida (atividade física, alimentação anti-inflamatória, gestão do estresse), o manejo de comorbidades como osteoporose e doenças cardiovasculares, e o suporte emocional para uma mulher que, muitas vezes, ainda carrega o peso psicológico do diagnóstico.
"Essas mulheres já enfrentaram grandes batalhas. Por meio de consultas ginecológicas regulares, acompanhamento próximo e acesso às melhores opções disponíveis, podemos oferecer uma vida com mais dignidade e mais qualidade", conclui o Dr. Alexandre.




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